A Pesquisa Translacional e o SUS: O Caminho dos Biomarcadores Moleculares na Oncologia Pública Brasileira

A Pesquisa Translacional e o SUS: O Caminho dos Biomarcadores Moleculares na Oncologia Pública Brasileira



O câncer permanece um dos maiores desafios de saúde pública em nível global, impondo um fardo significativo não apenas à qualidade de vida dos pacientes, mas também à sustentabilidade econômica dos sistemas de saúde. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) absorve a maior parte dessa demanda, enfrentando o complexo dilema de oferecer tratamentos inovadores e de alto custo em um cenário de recursos finitos.

Neste contexto, a pesquisa translacional, o esforço consciente de traduzir as descobertas da bancada do laboratório para a beira do leito, assume um papel estratégico fundamental. O objetivo não é apenas gerar conhecimento científico puro, mas também desenvolver ferramentas que otimizem o manejo clínico e garantam a equidade no acesso à medicina de precisão. O ápice dessa estratégia reside no desenvolvimento e na validação de biomarcadores moleculares.

O que é um biomarcador e por que ele é vital na oncologia

Define-se biomarcador como uma característica biológica que pode ser medida e avaliada de forma objetiva, servindo como indicador de processos biológicos normais, processos patogênicos ou respostas farmacológicas a uma intervenção terapêutica. Na oncologia, eles deixaram de ser apenas ferramentas de pesquisa e se tornaram pilares do cuidado clínico.

A utilidade clínica dos biomarcadores abrange todo o espectro do cuidado oncológico:

Monitoramento Precoce e Rastreamento: Identificar assinaturas moleculares que precedem as alterações visíveis, permitindo intervenções em estágios em que a cura se torna uma realidade maior.

Diagnóstico e Classificação Molecular: Refinar o diagnóstico histopatológico tradicional, subclassificando tumores com base em suas características moleculares para prever comportamento biológico.

Prognóstico: Determinar a agressividade inerente do tumor, ajudando a diferenciar pacientes que necessitam de tratamentos intensivos daqueles que podem evitar toxicidades desnecessárias (escalonamento e desescalonamento terapêutico).

Predição de Resposta e Direcionamento Terapêutico: O cerne da medicina de precisão. Identificar alterações genéticas ou epigenéticas acionáveis que indicam a sensibilidade a uma terapia-alvo ou imunoterapia específica, maximizando a eficácia e reduzindo gastos com tratamentos ineficazes.

Avaliação de Resposta e Monitoramento de Cura: Utilizar biópsias líquidas para detectar Doença Residual Mínima (DRM) pós-cirurgia ou quimioterapia, antecipando recaídas em comparação com ferramentas convencionais.

O Rigoroso Caminho do Desenvolvimento: Do Laboratório ao Guichê do SUS

Para que um candidato a biomarcador seja incorporado à prática clínica, especialmente em um sistema público universal como o SUS, ele deve percorrer um caminho rigoroso de validação, que se divide em fases distintas e inegociáveis:

Fase de Descoberta: Identificação de alvos potenciais por meio de tecnologias de alto rendimento (ômicas) em coortes laboratoriais.

Validação Analítica: Demonstração de que o teste é robusto, reprodutível, preciso e sensível em condições de laboratório clínico.

Validação Clínica: Demonstração de que o biomarcador está consistentemente associado ao desfecho clínico de interesse em coortes independentes de pacientes.

Avaliação de Utilidade Clínica: Prova de que o uso do teste melhora o desfecho do paciente em comparação com o manejo padrão ou oferece uma alternativa de custo-efetividade superior.

Incorporação Tecnológica: No Brasil, esta etapa passa pela CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS). A análise não é apenas científica, mas também econômica (farmacoeconomia). O biomarcador precisa provar que seu uso otimiza os recursos do SUS, seja reduzindo o tempo de internação, evitando tratamentos ineficazes de alto custo ou melhorando a sobrevida global.

A Fronteira do Conhecimento na REMPTO: Pequenos RNAs em Câncer de Mama e Ovário

A Rede Mineira de Pesquisa Translacional em Oncologia (REMPTO) posiciona-se na vanguarda da inovação oncológica em Minas Gerais, fomentando projetos estratégicos de pesquisa e desenvolvimento de biomarcadores. Dentre as iniciativas apoiadas pela rede, destaca-se uma linha de investigação focada no desenvolvimento de biomarcadores baseados em pequenos RNAs (miRNAs e outros sncRNAs), com ênfase nos cânceres de mama e de ovário.


O alto potencial translacional dessas moléculas reside em sua notável estabilidade em biofluidos (sangue, urina, saliva), especialmente quando encapsuladas em vesículas extracelulares, o que as protege da degradação enzimática. No contexto da biópsia líquida, os pequenos RNAs emergem como biomarcadores ideais, pois atuam como reguladores pós-transcricionais-chave na fisiologia celular. Suas alterações estão intrinsecamente ligadas à carcinogênese, refletindo dinamicamente o estado fisiológico do tumor e de seu microambiente.

Em uma perspectiva translacional na REMPTO, nosso objetivo é identificar assinaturas de pequenos RNAs com capacidade para:

·     Refinar a estratificação prognóstica de subtipos agressivos de câncer de mama, como o triplo-negativo (TNBC), otimizando a decisão clínica nos cenários pré e pós-cirúrgico.

·     Predizer precocemente a resistência à quimioterapia no câncer de ovário, viabilizando a troca célere de linhas terapêuticas e evitando toxicidades desnecessárias.

A viabilidade e a robustez científica deste estudo decorrem diretamente da infraestrutura de colaboração proporcionada pela rede. Que permite a integração entre bioinformática e biologia molecular avançada, bem como o acesso ao biobanco de tumores e aos dados clínicos meticulosamente anotados no Instituto Mário Penna. Esta instituição, pilar do tratamento oncológico pelo SUS em Minas Gerais, oferece a casuística necessária e o contexto de vida real do sistema público, fundamentais para superar as rigorosas etapas de validação clínica dos biomarcadores propostos.

Este estudo tem obtido avanços científicos concretos e de alto impacto. No cenário do câncer de mama triplo-negativo (TNBC), foi possível identificar uma assinatura de pequenos RNAs com alta acurácia na predição de Resposta Patológica Completa (pCR) em pacientes submetidas à terapia neoadjuvante. A identificação precoce de pacientes que não responderão ao esquema padrão poderá orientar o escalonamento terapêutico ou a inclusão em ensaios clínicos com novas estratégias terapêuticas.

Paralelamente, no câncer de ovário seroso de alto grau (HGSOC), as assinaturas de pequenos RNAs identificadas não apenas delineiam com precisão um perfil de resposta à platina, como também demonstram valor prognóstico robusto para o aumento do risco de metástases à distância. Esses resultados pavimentam o caminho para a implementação de testes moleculares que, no futuro, poderão ser incorporados ao SUS, garantindo um manejo mais assertivo, econômico e humano para as pacientes mineiras.

O Desafio da Sustentabilidade e o Compromisso da Pesquisa Nacional

O desenvolvimento de biomarcadores nacionais não é apenas um exercício acadêmico de excelência; é uma necessidade estratégica para a sustentabilidade do SUS. Ao dependermos exclusivamente de tecnologias e plataformas de testes internacionais, o SUS fica vulnerável à flutuação cambial e a custos proibitivos.

Ao focarmos no desenvolvimento de testes baseados em tecnologias que podem ser descentralizadas e padronizadas nos laboratórios centrais e de referência do SUS, a pesquisa translacional mineira cumpre sua missão social.

A ciência avança quando gera conhecimento. A medicina translacional avança quando esse conhecimento gera saúde acessível a todos. A REMPTO reafirma seu compromisso de trabalhar na fronteira do conhecimento molecular, garantindo que o rigor científico de hoje se transforme em cuidado de precisão e equitativo do amanhã para o paciente oncológico do SUS.


Fábio Ribeiro Queiroz, PhD

Pesquisador da REMPTO

Pesquisador no Núcleo de Ensino, Pesquisa e Inovação do Instituto Mário Penna – NEPI-IMP


Por Maria Gabrielle de Lima Rocha 6 de março de 2026
Estamos no mês de março, um mês dedicado às mulheres! No dia 8 de março celebramos o Dia Internacional da Mulher, que marca a luta histórica por igualdade de gênero, e temos o mês inteirinho dedicado à prevenção do câncer de colo do útero: o Março Lilás. Você sabe o que é essa doença e como preveni-la? O câncer de colo do útero é um tumor maligno (câncer) da parte inferior do útero, aquela que faz projeção para a cavidade vaginal e que é visualizada pelo médico durante o exame ginecológico (colposcopia). Esse câncer, infelizmente, é muito frequente no Brasil, ocupando a terceira posição, quando se exclui o câncer de pele não melanoma, perdendo apenas para o câncer de mama e o câncer colorretal (intestino). A parte mais triste de tudo isso é que esse tumor pode ser evitado se diagnosticado ainda nas lesões precursoras (nas fases iniciais). Com a vacina e a possibilidade de diagnóstico precoce, não era para tantas mulheres sofrerem com essa doença e terem suas vidas ceifadas por causa desse tumor! É para conscientizar a todos de que o Março Lilás nasceu O câncer de colo do útero, em cerca de 90% dos casos, está associado à infecção persistente pelo HPV de alto risco, um vírus sexualmente transmissível. A vacina contra o HPV, disponibilizada gratuitamente pelo SUS para pessoas do sexo feminino e masculino de 9 a 14 anos, em dose única, protege contra os dois tipos virais (16 e 18) mais agressivos, reduzindo drasticamente as chances de ocorrência desse tumor. Cabe ressaltar que a vacina contra o HPV também está disponível, gratuitamente, em três doses, para pessoas vivendo com HIV, transplantados de órgãos sólidos e de medula, além de pacientes oncológicos e vítimas de abuso sexual. Até os 14 anos são duas doses; acima dessa idade, até os 45 anos, três doses. Cabe também chamar a atenção para o fato de que a vacinação não é importante apenas para a prevenção do câncer do colo do útero (cerca de 70%). Ela protege também contra a maioria dos cânceres anais, metade dos cânceres de pênis, vulva e vagina e cerca de 40% dos cânceres de cabeça e pescoço associados ao HPV. Outra forma de prevenção é o rastreamento periódico de lesões precursoras do câncer com o exame preventivo, também conhecido como Papanicolaou. Este deve ser realizado periodicamente em todas as pessoas com útero, na faixa etária de 25 a 64 anos: anualmente e, após dois exames negativos para neoplasia, a cada três anos. A periodicidade da realização desse exame é muito importante para que a prevenção aconteça. A demora na consulta ginecológica pode fazer com que o diagnóstico seja tardio e que o câncer seja encontrado em estágios avançados. O diagnóstico precoce, portanto, é essencial para que o tratamento seja menos agressivo, aumentando as chances de cura para praticamente 100% dos casos. Cabe ressaltar que o câncer de colo do útero, nos estágios iniciais, é assintomático, sendo necessária a identificação das lesões por meio do exame preventivo ou pela colposcopia. Atualmente, o Ministério da Saúde tem trabalhado para implementar um novo teste para a identificação da presença da infecção pelo HPV, com o objetivo de aumentar as chances de identificação precoce das pessoas que podem desenvolver esse câncer. A nova proposta pretende mudar o rastreio, substituindo o exame preventivo por um método de biologia molecular. Até o momento, esse teste pode ser encontrado apenas em alguns estados, disponível para pessoas com atraso no rastreio citológico, mas a proposta é realizá-lo em todo o país e em todas as pessoas com útero a cada cinco anos. Tais mudanças só são possíveis com a compreensão da evolução das doenças e com o desenvolvimento de exames laboratoriais, algo possível somente com a pesquisa. É a pesquisa que possibilita compreender a doença e desenvolver estratégias de vacinação, diagnóstico, tratamento e cura. Na ReMPTO, está em desenvolvimento um projeto de validação da imunomarcação da RAP1-GTPase como marcador prognóstico para o câncer de colo do útero. Essa iniciativa busca identificar um novo biomarcador capaz de auxiliar na definição do prognóstico, permitindo ao médico avaliar o risco de progressão da doença e apoiar decisões clínicas mais precisas. Essa tecnologia contribui para o avanço da pesquisa científica e tecnológica em Minas Gerais e consolida a ReMPTO como um espaço estratégico de geração de conhecimento em ciência, tecnologia e inovação, impulsionando o desenvolvimento de abordagens terapêuticas mais precisas. 
11 de fevereiro de 2026
Globalmente, o câncer configura-se como um dos maiores desafios contemporâneos em saúde pública. A elevada carga de mortalidade associada à doença impõe um impacto expressivo não apenas aos sistemas de saúde, mas também às esferas social e econômica. Evidências científicas demonstram que o aumento significativo da incidência de câncer nas últimas décadas está fortemente associado a fatores de risco potencialmente modificáveis, como tabagismo, alimentação inadequada, consumo excessivo de álcool, exposições ocupacionais e poluição ambiental. Contudo, o câncer não começa no diagnóstico, a prevenção vem antes. A prevenção do câncer compreende diferentes níveis de atuação: ● a prevenção primária, que busca impedir o desenvolvimento tumoral; ● a prevenção secundária, voltada à detecção precoce por meio de estratégias de rastreamento e diagnóstico oportuno; ● a prevenção terciária, que visa reduzir o risco de recorrência, melhorar a resposta terapêutica e prolongar a sobrevida dos pacientes. Nesse contexto, a detecção precoce associada ao acesso oportuno ao tratamento adequado está diretamente relacionada a melhores taxas de resposta terapêutica, aumento da sobrevida e redução da morbidade. Embora terapias convencionais, como quimioterapia e radioterapia, permaneçam fundamentais no tratamento oncológico, suas limitações tornam-se evidentes diante da complexidade biológica e da heterogeneidade tumoral. A oncologia moderna, portanto, incorpora abordagens como terapias direcionadas e imunoterapia, ampliando as possibilidades terapêuticas ao explorar mecanismos moleculares específicos e ao potencializar a resposta do sistema imunológico contra o câncer. A redução da mortalidade e o aumento da sobrevida, entretanto, não dependem exclusivamente de fatores clínicos. Determinantes sociais, como condições socioeconômicas, desigualdades étnicas e acesso aos serviços de saúde, exercem influência significativa nos desfechos oncológicos e reforçam a necessidade de políticas públicas integradas e baseadas em evidências. É nesse cenário que a Rede Mineira de Pesquisa Translacional em Oncologia (ReMPTO) se consolida como um elo estratégico entre pesquisadores, profissionais de saúde, gestores e instituições. Ao integrar pesquisa básica, clínica e populacional, a ReMPTO contribui para a geração de evidências robustas, a avaliação de tecnologias em saúde, o fortalecimento de estratégias de prevenção e rastreamento e o apoio à formulação e ao aprimoramento de políticas públicas em oncologia.