Outubro Rosa: a importância da pesquisa translacional no cuidado do câncer de mama
Outubro Rosa: a importância da pesquisa translacional no cuidado do câncer de mama
No Brasil, a doença representa um importante problema de saúde pública. Para o triênio 2026-2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no país. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, essa é a neoplasia mais incidente entre as mulheres. Em 2024, foram registrados 20.849 óbitos pela doença no Brasil. Esses números mostram o tamanho do desafio, mas também ajudam a explicar por que o câncer de mama continua sendo uma área de intensa investigação.
A doença apresenta diferentes subtipos e características biológicas que podem influenciar sua evolução e a resposta ao tratamento. Pacientes com diagnósticos semelhantes podem apresentar comportamentos tumorais e respostas terapêuticas completamente diferentes.
É nesse cenário que surge uma pergunta importante: como podemos compreender melhor uma doença tão diversa e utilizar esse conhecimento para melhorar o cuidado dos pacientes?
A pesquisa científica é uma das formas de buscar essas respostas. Estudos realizados em diferentes áreas investigam como o câncer se desenvolve e progride, quais fatores estão relacionados ao risco da doença e por que alguns tumores respondem melhor a determinados tratamentos do que outros. Esses conhecimentos também contribuem para o desenvolvimento de novos exames, biomarcadores, medicamentos e estratégias de tratamento.
Você sabia que, por trás de um novo biomarcador, de um exame molecular ou de uma terapia direcionada, existem anos de investigação, colaboração entre pesquisadores e profissionais de saúde, participação de pacientes, desenvolvimento tecnológico e produção de evidências?
É justamente nesse processo que a pesquisa translacional ganha destaque. Ela busca aproximar o conhecimento produzido na pesquisa das necessidades encontradas na prática clínica. Uma observação feita durante o atendimento pode gerar uma nova pergunta de pesquisa, assim como um resultado obtido no laboratório pode abrir possibilidades para novos exames, biomarcadores ou tratamentos. O objetivo é fazer com que o conhecimento produzido em diferentes etapas da pesquisa possa ser avaliado e, quando demonstrada sua relevância, incorporado ao cuidado.
E como isso acontece no câncer de mama?
Os avanços da biologia molecular ampliaram nossa compreensão sobre as características dos tumores e sobre os fatores genéticos relacionados ao desenvolvimento da doença. O estudo dessas alterações ajudou a identificar grupos de pacientes com diferentes riscos e características tumorais, além de contribuir para escolhas mais direcionadas no acompanhamento e no tratamento.
Um exemplo importante envolve os genes BRCA1 e BRCA2. Alterações patogênicas nesses genes estão associadas a uma maior predisposição hereditária ao câncer de mama. e podem ter importância na avaliação do risco, no acompanhamento dos pacientes e na definição da conduta clínica. Ao longo dos anos, o conhecimento sobre esses genes foi acompanhado pelo desenvolvimento de métodos capazes de identificar essas alterações e pela produção de evidências sobre sua aplicação na prática. Além da avaliação do risco, a identificação dessas mutações também pode contribuir para a escolha de estratégias terapêuticas específicas.
E como essas alterações podem influenciar o tratamento? Em pacientes com câncer de mama HER2-negativo que apresentam mutações germinativas patogênicas em BRCA1 ou BRCA2, os inibidores de PARP podem ser utilizados em situações clínicas específicas. Essas alterações comprometem mecanismos importantes de reparo do DNA, e a inibição de PARP interfere em uma via adicional de reparo, aumentando a vulnerabilidade das células tumorais e favorecendo sua morte. Essa estratégia terapêutica já faz parte da assistência oferecida pelo SUS em situações específicas de câncer de ovário associado a mutações em BRCA1 ou BRCA2, enquanto, no câncer de mama, os inibidores de PARP possuem indicação aprovada pela Anvisa para determinados pacientes com essas alterações genéticas.
Mas como um conhecimento produzido pela pesquisa pode chegar ao sistema de saúde?
No Brasil, esse caminho pode ser observado no processo que levou à incorporação do sequenciamento de BRCA1 e BRCA2 ao SUS. A Lei nº 14.758, de 19 de dezembro de 2023, instituiu a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no âmbito do Sistema Único de Saúde e estabeleceu diretrizes para o cuidado integral das pessoas com câncer. Em 2026, a Lei nº 15.385 atualizou essa política e passou a incluir entre suas diretrizes a garantia de acesso adequado às tecnologias contra o câncer, além do estímulo à inovação e ao desenvolvimento tecnológico.
Em maio de 2026, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) recomendou a incorporação do sequenciamento de nova geração (NGS) para identificação de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 em mulheres com câncer de mama. A decisão foi formalizada pela Portaria SCTIE/MS nº 25, de 11 de maio de 2026.
A incorporação dessa tecnologia ao SUS representa um exemplo concreto de como uma descoberta científica pode percorrer diferentes etapas até chegar à assistência. O conhecimento sobre BRCA1 e BRCA2 foi construído por meio de estudos sobre genética, predisposição hereditária e câncer de mama, acompanhado pelo desenvolvimento de tecnologias capazes de identificar essas alterações e pela produção de evidências sobre sua utilidade clínica. Esse conjunto de conhecimentos e evidências contribuiu para a avaliação e posterior incorporação da tecnologia ao sistema público.
Pesquisa translacional em Minas Gerais
Esse tipo de trabalho também acontece em Minas Gerais. A Rede Mineira de Pesquisa Translacional em Oncologia (ReMPTO) reúne instituições de pesquisa, universidades e serviços de saúde com o objetivo de fortalecer a colaboração científica e desenvolver soluções para os desafios da oncologia. Entre as instituições participantes estão a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), o Instituto Mário Penna e a Fundação Cristiano Varella, além de outras instituições mineiras.
A atuação conjunta dessas instituições aproxima diferentes competências e estruturas de pesquisa, criando oportunidades para o desenvolvimento de estudos que envolvem desde a investigação de mecanismos biológicos até a avaliação de tecnologias e sua aplicação na assistência. Na ReMPTO, essa proposta está associada à produção de conhecimento, à inovação, à formação de profissionais e à busca por resultados que possam contribuir para o diagnóstico e o tratamento do câncer.
O câncer de mama continua representando um grande desafio para a saúde pública brasileira, especialmente diante de sua diversidade biológica e das diferenças existentes entre os pacientes. Ao longo das últimas décadas, a pesquisa científica ampliou o conhecimento sobre a doença e abriu novas possibilidades para diagnóstico, avaliação de risco e tratamento. A pesquisa translacional tem um papel importante nesse processo porque favorece a colaboração entre pesquisadores, profissionais de saúde e instituições, contribuindo para que novas descobertas sejam avaliadas e possam chegar à prática clínica. Fortalecer essa integração significa também fortalecer a capacidade de produzir respostas para os desafios atuais do câncer de mama e construir novas possibilidades de cuidado para os pacientes.
Gabriel Augusto Almeida dos Santos
Biomédico; Mestrando em Ciências da Saúde pelo Instituto René Rachou.






